Qimonda, jornalismo, ignorância, saudades 

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Image by Fernando Moreira via Flickr

As notícias sobre a Qimonda nos tempos mais recentes não têm sido nada boas. Qualquer pessoa que veja as notícias na televisão sabe que está em risco sério de fechar. Na sua fábrica de Vila do Conde, onde trabalhei durante quase 8 anos, trabalham quase 2000 pessoas, muitas delas minhas amigas, quase todos meus conhecidos.

Eu saí da Qimonda há 2 meses, antes das notícias de colapso eminente. Claro que sabíamos que a situação não era boa, mas nada fazia prever este desfecho. Ou melhor, não queríamos acreditar neste desfecho. Desde que deixamos de fazer parte da Infineon, que as coisas não corriam bem. Aliás, se as coisas estivessem a correr bem talvez a Infineon não fizesse o spin-off. Mas mais do que falar da crise da Qimonda, gostava de partilhar as coisas boas da Qimonda.

A Qimonda é seguramente a melhor industria para se trabalhar em Portugal. Não me interpretem mal, afinal de contas saí da Qimonda por minha vontade, certo? Saí porque fui à procura de novos desafios e de uma função e condições mais interessantes. E por muito que goste da minha actual empresa (acho que é de facto muito interessante, senão não tinha mudado!), não consigo deixar de dizer que trabalhar na Qimonda foi muito bom. Ambiente de trabalho fantástico, colegas com quem se aprende todos os dias e uma organização que põe à disposição de todos os que lá trabalham as mais recentes tecnologias, sejam elas de software, de formas de gestão, ou do que possam imaginar. Nas diversas reportagens que as televisões foram fazendo, onde questionavam os trabalhadores à saída da fábrica, era notória a diferença para outras situações do género: serenidade, discurso articulado e confiança na administração.

Nessas reportagens o que me irrita muito (muito mesmo!), é ver darem tempo de antena a uma qualquer dirigente sindical (nem sei o nome dele). Nunca na Qimonda o sindicato teve qualquer papel, fosse ele positivo ou negativo. A pessoa em causa não sabe nada da realidade da QImonda que a possa habilitar a aparecer na televisão a falar sobre o assunto. O mesmo se passa em relação aos políticos. Se isto serviu para alguma coisa, foi para perceber que eles não se preocupam em informar-se sobre os assunto de que falam, nem eles nem os jornalistas. Cheguei a ouvir o Francisco Louça a dizer que era mais uma “falência fraudulenta”. Fiquei mesmo triste e desiludido com tudo o que foi dito. Se a Qimonda fechar tenho a certeza de um coisa: terei sempre orgulho de ter feito parte daquela equipa. Os resultados que a nossa fabrica alcançou ano após ano, foram fantásticos. Teria sido bonito ouvir algum político ou jornalista dizer que 2008 tinha sido um ano de resultados fantásticos para a fábrica de Vila do Conde: batemos todos os records de produtividade, de volume produzido e menor custo por peça de sempre, quase ao nível das fábricas da China e da Malásia. Mas o que eles querem é sangue.

Eu no dia em que a Qimonda fechar cá em Portugal (espero que não tão cedo), vou chorar com todos os meus amigos que lá trabalham. Porque foram anos inesquecíveis e porque mesmo estando muito satisfeito onde trabalho actualmente, não consigo deixar de sentir saudades.