Startracking - como não perceber o que é a Web Social
Descobri através do Blog do Nuno, que existia uma Rede Social especialmente desenhada para os Portugueses que vivem fora do País.
O comentário dele à nova rede não era muito abonatório, mas pensei “hei, o Blog dele chama-se Ovelha Negra, deve resmungar a toda a hora! :)”
A verdade é que ele estava certíssimo nas observações que fez. Mal se entra na página, parece que estamos a entrar numa qualquer agência governamental Americana. As primeiras impressões contam muito, e não estavam a ser nada boas. Lendo a apresentação da iniciativa, não ajudou nada:
O Star Tracking é uma Odisseia de Talento de iniciativa privada e apartidária que visa identificar o talento global português e fomentar o networking nessa comunidade com o objectivo de criar valor para o país, através da partilha de conhecimento num ambiente web 2.0.
Sentir a necessidade de referir que é uma iniciativa apartidária, é porque é de facto uma iniciativa partidária. Porque raio teria uma rede social a necessidade de se apresentar como apartidária, se não houvessem razões para se achar que o era de facto?
A liberdade
Como entrar para esta rede de eleitos? É só clicar onde diz “como fazer parte“, e acedemos a uma página onde expica isto:
Who can join The Star Tracker?
1. Portuguese Nationality or Portuguese Born Citizens;
2. Currently living abroad, having past international experience (over 6 months abroad) or planning to work abroad in a near future;
3. Proposed member is a Talent. This is a network of talented people, who are also trustworthy individuals.
Portanto deixem ver se percebo, só podem entrar portugueses, mas a página é toda em Inglês? Faz sentido.
Um dos aspectos fundamentais da Web Social é o facto de ser aberta. Uma Rede Social como o Facebook, mySpace, Hi5, etc. aceitam todos os que queiram participar. São depois as suas acções e o valor acrescentado que trazem à “conversa”, à comunidade, que vão determinar a sua influência na rede. Esta startracker parte do inverso: escolhe os participantes, na tentative de aumentar o sentido de exclusividade. É uma opção, mas faz-me lembrar os Country Clubs que só aceitam os membros com pedigree. Quando olharem para o lado, está alguém sem pedigree que não se deixou moldar pelo estabelecido, a criar o futuro.
Afinal eles não gostam de Portugal
Entrando na página das regras, podemos encontrar isto (agora em português):
Convidamos-te a utilizar o site de forma positiva, procurando abordar os problemas do nosso país com soluções e sugestões construtivas.
Desafiamos-te a explorar o potencial desta rede, propondo iniciativas concretas que possam contribuir para um Portugal vencedor, por isso, se quiseres abraçar esta causa deves comprometer-te com algumas regras simples:
Não dizer mal de Portugal;
Explicar porque te orgulhas de ser Português;
Fomentar o networking com Portugueses;
Participar cívica e socialmente na construção do futuro do nosso País;
Participar activamente no Star Tracking com ideias, projectos e opiniões para a construção de um Portugal vencedor;
Participar na implementação de um projecto que faça bem a Portugal;
Divulgar o Star Tracking junto do teu network de amigos talentosos
Quem fizer parte desta rede não pode dizer mal de Portugal. Não pode apontar o que está errado. O Randy Pausch, o professor que morreu recentemente, contava uma história sobre um treinador que teve no tempo do liceu. Esse treinador era muito exigente com ele e um dia, depois de um treino especialmente duro, um dos treinadores adjuntos veio ter com ele e disse-lhe: “O treinador é muito duro contigo porque se preocupa e gosta de ti. No dia em que não tiveres ninguém a ser duro contigo e a chamar-te à atenção deves ficar preocupado. É porque já não querem saber.”
Como é que esperam ajudar Portugal, se nãodeixam que se fale mal de Portugal, que se apontem os erros que precisam de ser corrigidos? No mínimo as conversas serão chatas. No limite é censura.
e Deus é chamado à discussão
No manifesto que lá pode ser encontrado, a última frase invoca Deus.
E, por isso, agora que arrancámos, pedimos a bênção de Deus para a maior aventura em que a Jason jamais embarcou.
Admiro as pessoas que são crentes, mas ao fazê-lo no manifesto da Rede, estão a condicionar novamente os seus integrantes. Fica claro para todos que os membros devem ser Portugueses, tementes a Deus, corresponder ao modelo (”talentosos”) e não podem dizer mal de Portugal.
Outra coisa curiosa são as últimas palavras: “em que a Jason jamais embarcou.” A Jason jamais embarcou. Não é a comunidade, não são os “talentos”, é a Jason, a empresa dona da rede.
Fiquei muito desapontado. Pensei que fosse outro projecto interessante, como por exemplo o Adegga. Mas na minha opinião é um bom exemplo de como a Web Social não deve ser.
Desta rede não quero fazer parte.
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Tags: Portugal, Social Web, Startracking
